A espiritualidade conjugal não é a soma de duas espiritualidades individuais, a do marido e a da mulher. Seria ingenuidade pensar que o casal pratica a espiritualidade conjugal porque vão à missa aos domingos juntos, rezam o terço e fazem juntos alguma novena. Não é só isso é muito mais que isso, como dizem os teólogos casados Ester e Marcelo.
Frei Almir Guimarães diz que a espiritualidade conjugal não consiste na colagem de práticas religiosas, algumas até exuberantes como durante a quaresma acordar de madrugada para rezar o oficio divino em algum mosteiro.
Também não consiste a espiritualidade conjugal em interioridades, em atos com “odor de santidade” ou experiências piedosas angelicais que afastem a presença do homem e mulher integral, dotado de um corpo espiritual e de um espírito corporificado, como dizia João Paulo II.
“ o matrimônio dos batizados torna-se assim o símbolo real da nova e eterna aliança, decretada no sangue de Cristo. O Espírito que o Senhor infunde doa um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal que é o modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a cruz..” (FC, 13)
O Papa continua: “Em virtude da sacramentalidade de seu matrimônio os esposos estão vinculados um ao outro da maneira mais profundamente indissolúvel. A sua pertença recíproca é a representação real através do sinal sacramental da mesma relação de Cristo com a Igreja.”
“Os esposos são, portanto, para a Igreja o chamamento permanente daquilo que aconteceu sobre a cruz: são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação da qual o sacramento os faz participar” (idem)
O matrimônio é um símbolo real do acontecimento da salvação, mas de um modo próprio. Os esposos participam nele enquanto esposos, a dois, como casal a tal ponto que o efeito primeiro e imediato do matrimônio (res et sacramentum) não é a graça sacramental propriamente, mas o vinculo conjugal cristão, uma comunhão a dois, tipicamente cristã porque representa o mistério da Encarnação de Cristo e o seu Mistério de Aliança.
A Familiaris Consortio para surpresa de muitos vai dizer que o primeiro efeito do sacramento não é a graça sobrenatural o que deita por terra qualquer odor de santidade ou pretenso ato piedoso, mas pura e simplesmente vai permitir que o amor dos dois se torne sempre mais forte e intenso, mais vivo e venturoso mais unificante e feliz.
Não poderia ser diferente, porque só assim marido e mulher vão realizar aquele desejo do Criador de que sejam uma só carne. O projeto divino é de tal vigor que o sacramento não se restringe a um ato litúrgico no altar. Não se exaure em um momento, por mais bela que seja a liturgia nupcial, mas perdura ao longo da vida do casal, gerando a força do Alto, a graça. Cada palavra de afeto, gesto de doçura ou de atenção, ou de entrega recíproca, que traduz o amor e a felicidade impar dos dois é a realização continuada do sacramento
O sacramento permanece vivo e atuante durante toda a vida do casal e Deus presente no amor deles os vai santificando o tornando cada vez mais sua imagem e semelhança.
O Concilio de Trento em 1545 a 1563 sobre o matrimonio já ensinou que a finalidade do matrimónio era “amorem naturalem perficere” aperfeiçoar o amor natural e “conjugesque santificare” santificar os cônjuges..
O casamento foi feito por Deus, elevado por Jesus a categoria de sacramento também para nos santificar na prática da convivência matrimonial. A santidade do casal existe em razão direta do amor que os une, quanto maior o amor demonstrado em atitudes maior é a santidade visível para os filhos e os amigos. O amor que os une não é um amor diferente, angelical, mas um amor humano ardente de desejo e de doação recíproca. Não é um amor que paira nas alturas. È a santidade que brota da apaixonada união que faz o encanto e que inebria a vida dos que se casam. É a santidade que busca sua fonte no enlevo e no contentamento feliz que a vida a dois, cheia de amor proporciona.
Frei Almir Guimarães diz que não existe nada mais concreto do que a espiritualidade conjugal.
A espiritualidade que brota do matrimônio é pé no chão. Não necessita de termos litúrgicos para ser vivida, de orações especiais ou de intervenção do clero.Não necessita também de uma Igreja ou capela. É no recesso do lar que ela se opera, na vida a dois com todas as suas vicissitudes de alegrias e tristezas, encontros e desencontros, na mesa festiva ou no gozo extasiante do leito conjugal que os casados vivem e praticam a espiritualidade conjugal.
È na cama do casal – altar conjugal – que o sacramento encontra sua máxima densidade sacramental como proclamou o CELAM em Puebla. Nada neste mundo revela tanto o mistério de Deus conosco, de seu poder, de sua grandeza, junto a nós, com seu élan criador como na comunhão de amor existente na relação entre marido é mulher. É na linguagem sexual dos corpos que Deus se transfere para este mundo, pois ela é sinal eficaz que revela e traz ao mundo o mistério do amor de Deus.
Alguém poderia dizer: acorda, Brandão, a realidade é bem outra. Não desconhecemos quão longe estamos de realizar em nossa vida o projeto de Deus em sua plenitude, mas é exatamente porque não conhecemos muito bem ainda o que vem a ser a espiritualidade conjugal.
Pedimos ao Espírito Santo que nos ilumine e dê esta graça.
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